Setenta anos de História na Vinificação
A crescente riqueza e consequente importância social da família Abreu Callado remonta ao fim do antigo regime constitucional (que só terminou em 1910), quando José de Abreu, lavrador casado com Rosa do Carmo Monteiro Callado Godinho, beneficiou da legislação pombalina que alarga a instituição da "enfiteuse" (o mais amplo direito real sobre imóvel alheio, com a obrigação de pagar ao proprietário uma determinada renda anual... consiste na transcrição legal, na sucessão hereditária e na usucapião), o que facilitou a transmissão de propriedades pertencentes a famílias nobres (como os Vaz Negrão e os Soeiro Fortio de Leão, residentes em Benavila), aos lavradores, "(...) reforçando a sua posição de titulares de terras e impondo a rigidez dos arrendamentos das quintas alentejanas" (M. Antónia Pires de Almeida, 2006, p.51). Os seus filhos, João de Abreu Callado e Francisco de Abreu Callado, depois de constituírem casas agrícolas separadas após a sua morte, beneficiaram após a revolução liberal de 1820, não só da legislação pombalina, mantida por Mouzinho da Silveira no que se refere aos bens patrimoniais, como de toda a restante legislação liberal, reforçando a propriedade burguesa.
Vinícola em uma longa jornada
Mas Francisco Abreu Callado (1835-1913), ao casar com Maria Madalena Godinho (1840-1889), da riquíssima família Godinho, originária da vila de Galveias, aumentou substancialmente a riqueza herdada do pai, alargando o seu património fundiário não só no concelho de Avis, como os de Arraiolos, Alter do Chão, Fronteira e Estremoz. A compra de propriedades (efetuada na segunda metade do século XIX) tornou-se um fator de mobilidade social para Francisco Abreu Callado, que passará a beneficiar do estatuto de membro da elite fundiária de Avis e do Alentejo.
Entretanto, para defender a sua posição económica e social, ocupará o lugar de líder local do Partido Progressista, pelo qual será eleito Presidente da Câmara de Avis entre 1890 e 1892, cargo que abandonará (acredita-se) por motivos de doença, mas que conservará para o Partido Progressista, através da eleição (graças à sua influência junto dos grandes proprietários) do seu irmão João de Abreu, que será presidente de 1892 a 1898. Por sua vez, e segundo o jornal (quinzenal) "O Pescador", de 1 de Janeiro de 1914, a sua condição de bom cristão levou-o a praticar, ao longo da sua vida, acções de caridade, tais como: pagar o restauro das igrejas de Nossa Senhora d'Entre-guas, da Misericórdia de Benavila, e de S. Saturnino de Valongo, e todas as actividades festivas de carácter religioso da freguesia. Segundo o mesmo jornal, ele também ofereceu à Junta Paroquial de Benavila todo o terreno necessário para a construção de um novo cemitério, pois o que bordejava a nova Igreja Matriz estava esgotado. Ao falecer em 1º de dezembro de 1913, em consequência de uma doença prolongada, deixou uma filha e dois filhos, Rosa Madalena Godinho de Abreu, Cosme de Campos Callad e José Godinho de Abreu. No entanto, antes de falecer, faleceu prematuramente, em 16 de abril de 1900, de sua outra filha, Beatriz Angélica Godinho de Abreu, de 27 anos. Tudo indica que os três irmãos, por fidelidade à memória do pai, mantiveram a concentração.
Até às últimas consequências, porque "apesar da existência de alguns romances", nenhum contraiu matrimónio. Dedicou a sua vida à gestão doméstica do lar, às tarefas religiosas e à caridade. José Godinho de Abreu (1879–1946) seria o responsável pela agricultura e pecuária da Casa Agrícola, tendo também desempenhado funções municipais no concelho de Avis (vice-presidente do conselho entre 1902 e 1904). Era um grande amante da pecuária. Era muito conhecedor da seleção de gado bovino, muitos dos quais foram premiados nas mais diversas provas por todo o país. Da criação de cavalos na sua "casa de lavoura", Kalifa surgiria como campeã internacional que, em 1931, montada pelo concorrente Mena e Silva, venceu o Concurso Hípico de Nice. Finalmente, Cosme de Campos Callado (1871-1948), Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, desempenhou simultaneamente as funções de administrador da sociedade agrícola constituída pelos três irmãos após a morte do pai e de líder político municipal: Administrador do Município em 1901; Vice-Presidente da Câmara entre 1905-1908; Presidente da Câmara nos períodos 1908-1910 e 1923-1930; e Presidente da Comissão Administrativa da mesma Câmara no período 1933-1934.
Vinhas e Vinhos
Os três irmãos deram continuidade à meritória obra do pai: no início da década de 1930, custearam toda a instalação de um laboratório de análises no hospital de Avis, bem como da escola primária (em 1932, na Rua do Rossio), de uma central elétrica em Benavila e, já no início da década de 40, mandaram construir um "asilo", inicialmente presidido por Cosme de Campos Callado, ao qual deram o nome de sua falecida mãe, Da Maria Magdalena Godinho de Abreu, destinado a albergar os idosos de ambos os sexos do concelho de Avis, dando prioridade, porém, aos de Benavila que tivessem trabalhado na casa agrícola da família. Após a morte de Rosa Magdalena Godinho de Abreu e José Godinho de Abreu, o já Comendador da Ordem de Benemerência, Cosme de Campos Callado, que ficou só (frente à Casa Agrícola e ao Asilo), sem descendência direta e solteiro como os irmãos falecidos, decidiu em testamento público, lavrado em 16 de julho de 1947, que todos os seus bens, no momento do seu falecimento, fossem destinados a uma fundação que perpetuasse a Casa Agrícola fundada por seu pai, garantisse a qualidade de vida dos servos e a educação dos seus filhos e demais trabalhadores rurais, não só em Benavila como no resto de Avis.
Cosme de Campos Callado, último membro da família Abreu Callado, faleceu em Benavila, em 30 de junho de 1948, aproximadamente um ano após ter tido seu testamento lavrado. A escritura de criação de sua Fundação ocorreria em 22 de dezembro de 1948, sob iniciativa do Dr. Jayme Pimenta Dear.
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